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Há mar e mar

"Há mar e mar, há ir e voltar"

Há mar e mar

"Há mar e mar, há ir e voltar"

Quando a casa se serve à mesa

14
Fev20

Estou agora na Noruega, no parque nacional de Jotunheimen. Este parque nacional situado mais ou menos no centro da Noruega inclui várias montanhas com mais de 2000m. A maior montanha da Noruega situa-se nesta zona.

Estou a trabalhar num hotel - o Hindsæter Fjellhotel. Tem sido uma experiência interessante onde tenho aprendido várias coisas novas. Também gosto do facto de ter tanta natureza à minha volta e de sair praticamente todos os dias para fazer um trilho diferente.
No hotel o menu é fixo para cada dia da semana. Duas entradas, um prato principal e uma sobremesa. À quarta-feira o prato principal é bacalhau...
Aqui o bacalhau não se serve com alho. Aqui o bacalhau traz até mim um bocadinho de casa.
Os turistas querem falar com a portuguesa e dizer que estiveram na maravilhosa cidade do Porto. Que fizeram isto ou aquilo e o que comeram. Querem perguntar como são os nossos pratos de bacalhau. E até os meus colegas têm questões!
Aqui o bacalhau relembra-me o quão longe estou e traz com ele a saudade. Não a saudade do meu país mas a saudade de casa.
Hoje para além de bacalhau servi um bocadinho de casa e espalhei cultura portuguesa por aí. E foi quando falava da invicta e do rio Douro que a saudade falou por si.
A única coisa que o prato servido partilha com os nossos é o peixe. Não há alho nem azeite.
Aqui não servem bacalhau mas bakaleo ou algo do género dependendo de quem pronuncie o nome. E quando me perguntam como se diz eu emendo: bacalhau e eles: ahhh baculeo!
E hoje mais do que peixe, mais do que um prato servi um pouquinho do nosso país. Sorri de forma sincera e tentei explicar tudo o que consegui a quem me quis ouvir.
Às quartas quando este peixe pescado nas ilhas Lofoten (ilhas no norte da Noruega) vai nas minhas mãos entre a cozinha e a mesa levo comigo um pouco de casa e apresento: aqui está o vosso bacalhau! E, assim sirvo um pouquinho de Portugal. Sirvo à mesa umas postinhas de casa!

Talvez...

Aventura pela Lapónia

20
Jan20

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Deixar a Lapónia para trás faz crescer em mim um vazio, por ter de sair daquele lugar que tanto gosto. As promessas de voltar não serão certas pelo que fica no ar o talvez. Talvez volte, talvez não. O futuro é algo incerto e, por vezes, uma pequena variável muda o curso de todos os acontecimentos. Gostava de voltar quando o sol mal se põe, quando há sempre luz e os lagos não estão congelados. Quando a floresta em vez de  branca e cinzenta é verde e castanha. Entre mim e aquele lugar fica a memória do povo Sami, da separação das renas, de as alimentar. Fica comigo o facto de ter lá estado, de ter vivido na noite polar e no frio. De ter andado e conduzido uma mota de neve. De ter andado mais horas de carro do que alguma vez podia imaginar ser possível de aguentar e ter visto a paisagem a mudar desde Estocolmo até Kuttainen. Ter presenciado uma tempestade de neve e as árvores que estavam cheias de neve ficarem logo (ou depois)sem um único floco branco. De ter visto as famosas auroras boreais a dançar no céu em tons de verde, a brilharem mais e menos, a mudarem de lugar e de forma. Fica comigo a memória de um povo e da sua cultura. Um povo que sobreviveu ao frio criando renas, usando a sua carne para alimento e a sua pele para roupa. O povo Sami ou povo Lapão que habita a Lapónia, o território acima do Círculo Polar Ártico de quatro países: Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Este povo sobreviveu não só ao frio como à discriminação por ser uma minoria. Foi submetido a testes e medições. Ser Sami não era motivo de orgulho pelo que a cultura que carregavam deixou de ser passada de pais para filhos. Assim, a nova geração de samis não aprendia a falar sami e a cultura que era passada de boca em boca ficava assim perdida algures entre duas gerações. A sua cultura está agora a ganhar força novamente, mas muita é quase irrecuperável. Agora já não vivem em tendas tipi e para tratar do gado usam motas de neve, câmaras, drones e mesmo helicópteros. Todas estas ferramentas ajudam-nos a trabalhar com mais facilidade. O seu trabalho, embora incrível, não é nada fácil! Ter de separar as renas exige força e, embora mais mulheres o façam, ainda há o predomínio do homem neste trabalho. E foram todas estas pequenas coisas que tive a sorte de presenciar que me chamam a voltar. Encontrei calor no território frio e fiquei não menos ( mais que) que deslumbrada. Um local que para mim nem existia antes de pensar nesta aventura, tornou-se num local que custa abandonar, tornou-se um local de aventura e descoberta. 

Na Lapónia o tempo passa devagar e a noite dá para fazer imensa coisa. Cada vez que saio à rua a neve cumprimenta-me de forma calorosa e o frio abraça-me de uma forma reconfortante. Este local deixa agora saudade por estar longe e por eu já não estar ali, por não aproveitar a sua beleza. 

Mas é hora de voltar à estrada, de continuar a descobrir. Portanto fica no ar o talvez e  veremos o que o futuro me reserva. 

Obrigada Lapónia, por me teres revelado o teu encanto e me teres proporcionado momentos incacreditáveis! Um até já, talvez...

Vamos esclarecer alguns dilemas!

06
Dez19

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Lembrar-me que estou aqui despoleta em mim um sorriso.
Já passeei por ruas onde se desenrolam algumas das minhas histórias preferidas! Os meus escritores favoritos, o espírito natalício, o frio, a neve, já encontrei um pouco de tudo isto desde que cheguei à Suécia.
Uns dias depois de chegar embarquei numa viagem sem retorno rumo ao Ártico, rumo à Lapónia!
O meu destino era o desconhecido, as paisagens deslumbrantes, os lagos gelados, a neve. O frio que via pela janela sentia-o desnecessariamente nos ossos.
Ir até Kiruna foi uma viagem que começou por ser incerta e se revelou numa incrível experiência cultural!
E, por falar em cultura lembro-me de alguém dizer: "Ah viajar pela Europa não tem grande piada não há choque cultural. As pessoas vestem-se todas da mesma forma, têm as mesmas lojas, a mesma moeda, os mesmos hábitos, etc." Claro que eu teimosa como sou não me deixei abalar, mas isso deixou-me um pouco triste, confesso. Queria dizer que não iria aprender tanto?
A verdade é que devo dizer que este é um grande equívoco...
Começando perto de Portugal tens logo Espanha onde tudo fecha na hora da Siesta, na Alemanha não tentes ir às compras ao domingo! E depois, vai-te habituando a não ter sempre sol até às 17h30. A almoçar às 12h e jantar às 18h. A não comer duas grandes refeições ou a comer imenso, dependendo do país. A ver "horas de ponta" em horários mesmo esquisitos para ti!
Por vezes não precisamos de ir para o outro lado do mundo! Claro que as diferenças serão maiores, era estranho se assim não fosse.
Ao menos conheces o local onde pertences? Como podes dizer que o colchão do vizinho é melhor se ainda não dormiste no teu? Claro, "a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha"...
A verdade é que já vi tanta comida, tanta cultura, tudo tão diferente do que estava habituada. E ainda mal saí de casa!
E o sol? Essa é outra!
Vim de comboio e cada país era uma espécie de aclimatação agora que amanhã o sol nem nascerá para mim: a noite polar vai começar!
Eu nunca fui daqueles portugueses que adoram o sol, aliás, ando sempre a fugir dele mas quando cheguei à Suécia e percebi quão escuro estava até me doeu a alma!
O sol não é um sol brilhante e que aquece como o nosso. Mesmo quando aparece, não nos aquece por dentro como faz aquele solzinho de inverno que te aquece nas manhãs frias de geada!
Outra coisa que sempre me disseram quando falava do norte da Europa é o quão fechadas eram as pessoas. Mas obvio que quanto a isso também tenho algo a comentar... Até agora só tenho conhecido pessoas fantásticas. Que adoram saber mais de Portugal, da nossa cultura e que gostam de partilhar a deles. Que me convidam para lanchar, para me juntar a eles, que me contam mais sobre os seus hábitos, que partilham comigo o que têm (às vezes só precisam é de um incentivo ou de um sorriso primeiro). Obviamente que não partilham comigo os seus segredos mas acho que ninguém desata a contar a sua vida a estranhos - menos o senhor Joaquim Reis mas esse é um caso à parte!
Não são iguais aos portugueses claro que não mas em Portugal nem todos são iguais! Uns são mais fechados e outros abrem-te logo a porta e deixam-te entrar!
Isto para dizer que também no norte da Europa existem pessoas diferentes mas não são bichos papões que se fecham e nem partilham nada contigo. De histórias a comida: cafés, bolos, ... Claro, já me cruzei com pessoas que me viraram a cara quando tento perguntar onde é a paragem de autocarro mas essas pessoas não são 100% do país!
Apesar de um mundo cada vez mais próximo e global ainda há coisas que nos distinguem e não precisamos de percorrer meio mundo para as encontrar. É tão interessante descobrir as pequenas diferenças que temos tão perto de nós.

 

Na hora de partir

24
Nov19

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A vida começa sempre amanhã! Nunca hoje, porque hoje é hoje. Amanhã é que é.
Não começa no básico porque a secundária é que é importante mas na secundária o tempo para aproveitar não é agora é na universidade. Adiamos as nossas vidas constantemente e, apesar de as vivermos vamos com a corrente.
Decidi quebrar a corrente e deixar o conforto a alguns kilómetros. A decisão não foi fácil mas algo me dizia que se voltasse atrás o futuro seria penoso. Escusado será dizer que aceitei o desafio que impus a mim própria.
Et voila mais uma miúda em solo travel. Parva, louca sim pode dizer-se que tenho a minha quota de ideias peregrinas! Aventureira, corajosa? Não. Não me sinto nada das palavras que usam para me escrever.
Sinto-me, apenas, bem. E percebo isso quando me deixo deslumbrar pelas paisagens que vejo e me impedem de ler o livro que trouxe comigo.
Apesar de tudo, para mim, a viagem não começou no planeamento mas também não começou apenas quando entrei no comboio. Penso que foi nessa manhã.
A mala ainda por fazer revelava um pouco de quem eu sou. Nesse dia o que senti não foi constante. Saudades, nervos, vontade de partir e de ficar. Não de uma forma tão linear como descrevi!
E foi assim que dei um passo para o desafio que me propus. Que foi mais um salto e de paraquedas, lá bem no alto.
No meio de tudo consegui fechar a mala. A hora de entrar no comboio estava cada vez mais perto e eu ainda sem ter bem a noção no que me estava a meter.
Eventualmente a hora chegou e quando me sentei no lugar entendi: estava sozinha! Não me entendam mal eu não estava só - para além de estar rodeada de pessoas ainda na estação e em casa e um pouco por todo o país tinha e tenho pessoas a torcer por mim. Não foi a primeira vez que entrei num comboio assim, desta forma mas sabia que dentro de algumas horas o comboio ia parar na estação certa eu ia sair e encontrar alguém do outro lado e se não fosse este o caso o mais tardar dentro de algumas horas ia voltar para casa. Mas, desta vez não ia ver um rosto conhecido e quem me esperava era a ríspida cidade de Paris!
Aquele momento foi estranho. Não há melhor palavra para o descrever que essa não foi esmagador nem avassalador foi apenas estranho.
Estava agora a rumar para o desconhecido!

Tudo o que sou... ou então não

15
Out19

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A verdade é que não vivemos num mundo perfeito – ups, desculpa se te desiludi. Por favor continua a ler …

Se estás a ler isto, é porque queres e esse querer deve-se a algo: o facto de me conheceres, a curiosidade para ver o que iria dizer ou mesmo por quereres saber o que diz o outro texto e ele ser demasiado longo… No fundo pequenas influências.

O que quero dizer é que somos seres humanos, seres que não vivem sozinhos e necessitam da sociedade – de outros humanos à sua volta – para serem pessoas e não meros animais.

Já todos fomos influenciados quer seja por publicidade, por criadores de conteúdo ou mesmo pelos nossos pais ou amigos. Se achas que não, então pensa lá no assunto que isso está explicado melhor na versão comprida e eu não me quero alongar.

 

Tudo o que sou e o que não sou

15
Out19

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Como seres humanos somos constantemente influenciados: publicidade, pares, movimentos, … O que vemos e o que ouvimos leva-nos constantemente a repensar e a fazer escolhas diferentes das que faríamos antes de adquirir esse estímulo.

“Influencers”, “criadores de conteúdo”, “agentes publicitários” entre outros nomes, definições, profissões ou passatempos há pessoas cuja função é levar-nos a agir de forma condicionada por meio das redes sociais, das televisões, dos catálogos.

O ser humano, como ser sociável, procura estar constantemente em sociedade, a interagir com outros seres humanos e animais. É assim que crescemos, que aprendemos, que nos diferenciamos e nos tornamos distintos de outros seres humanos. É o processo de socialização que nos atribui a racionalidade ou não passaríamos de meros animais como vemos acontecer em alguns casos onde crianças são privadas da sociedade: Amala e Kamala, Victor de Aveyron, etc. A verdade é que sem contacto, sem influência de outros, não seríamos quem somos hoje.

A minha personalidade é devida a um conjunto de estímulos aos quais fui exposta. O meu caminho, o meu percurso de vida, as minhas escolhas, todos derivam de momentos na minha vida, factos e acontecimento aos quais fui exposta de maneira propositada ou não.

Não precisam de ter sido grandes momentos, podem ter sido apenas frações de segundo ou mesmo sussurros de alguma conversa fugitiva.

 

 

Para quem não gosta de textos extensos e pesados encolhi a reflexão!
https://a-maremar.blogs.sapo.pt/tudo-o-que-sou-ou-entao-nao-957